- colorindo.

Como pode tão pouco tempo? Como pode dominar os sentidos assim? Será que isso é uma viagem astral, em um frenesi constante? Do preto-branco-cinza, achamos um balde de tinta cheio de cores com uma gama imensa de toda a aquarela, e eu gostei da sua. Voando de mãos dadas, sobre nuvens, dentre os pássaros, pintando um arco-íris, mas com os pés no chão; como pode isso? Eu pinto de um lado e você do outro e nos encontramos (sempre), pois o céu é nosso e as cores nós que escolhemos. Eu protagonizo as suas cores e você as minhas e nos completamos mais uma vez.
“Pois sei que nada mudou.”

- um velho em sua visão.

[...] a preguiça era tanta que nem vestiu-se adequadamente para dormir. Deitou-se com sapato, relógio, terno e gel no cabelo; acompanhado de um suspiro. Mas ao se dar conta de que olharia para o lado e não acharia ninguém, deu um gemido agonizante de desespero, pois não saberia como dormir naquela noite; mas seus olhos estavam fechando. De repente vira-se na cama, já com a samba-canção e sem os acessórios, e vê alguém de costas: o cheiro era bom, os cabelos cumpridos, sua temperatura era quente, mesmo no frio; o encaixe perfeito. Sua vontade era de gritar bem alto e colocar fogo naquele lugar, mas o rosto de sua amada era tão angelical que ele apenas pode abraçá-la e perguntou em pensamento se ela gostava daquilo, e ela disse sim; estranhamente. Agora tudo estava no lugar certo, onde achara a peça que estava faltando nele; estando, agora, completo e ali queria ficar. Seu celular apitou mostrando que já eram três horas da manhã e ao lembrar-se de sua amada, começa a lembrar-se também dos seus sentidos e, no escuro de seu quarto, encontrou-se abraçando um travesseiro frio, com um cheiro de sua amada, e agora banhado de lágrimas de saudades e vazio, estando ainda com o sapato, relógio, terno e o gel; um doce delírio.
“Eu queria que ela estivesse aqui.”

- e daí?

A chuva caiu, e tudo molhou, e daí?
O sol surgiu e tudo secou, e daí?
Tropeçou e se sujou, e daí?
O sabonete percorreu e tudo limpou, e daí?
A espuma no caminho desceu, e daí?
A toalha, esfregando, secou, e daí?
Andando pelo caminho pensou, e daí?
De olhos fechados voou, e daí?
Uma buzina o assustou, e daí?
Sua mente, agora, pairou, e daí?
Sorvete de morango provou, e daí?
Aquela música tocou, e daí?
Uma sensação formou, e daí?
Ao meu lado, uma folha seca sentou, e daí?
O mundo, devagar girou, e daí?
No fim da tarde suspirou, e daí?
Pequenas luzes no céu formou, e daí?
E em sua cama o celular tocou, e daí?
Deitado, apaixonado, seu olho fechou...
E o outro, aberto, te procurou; e daí?
“Há coisas que simplesmente nos faz ganhar o dia; e daí?”

- luz, câmera, ação.

O rádio ligou, a música tocou. A fumaça soprou, tudo parou.
Era uma canção, que tocou o coração. E até a emoção ficou sem direção.
O vento ainda soprava e o holofote brilhava. A cortina balançava e uma melodia formava.
Tudo misturou e ali marcou. Um grito forçou, mas não desafinou.
Ferida, voando, e ela retornando. A mente ensinando, sozinha cantando.
Então a mudança pagou a fiança. Voltei a ser criança e resgatei a esperança.
Da estrada o seguimento, guiado pelo vento. Um novo surgimento... um nascimento.
Acessas as luzes no auditório, com um novo repertório. Posto o último acessório, as palmas chamam, não ilusório.
“Os dias são como num palco, onde, mesmo ensaiando a peça, há algo inesperado; basta não temer.”