- (re)inventando.

Tudo mudou... a vida mudou, o andar mudou, o quadrado mudou, a rota mudou, o sabor agora é outro; tudo está metódico, chato e previsível e se é assim que tem que ser então seja. Tive que (re)criar sentimentos, confeccionar os passos e deixar de sonhar alguns sonhos; sem expectativas. (re)Fiz meu libido, transformei minha necessidade e a bússola está para leste, apontando para um caminho perdido no meio tédio. Tirei o velho cérebro e (re)pensei em pensar um pensamento objetivo... sim agora sim! (re)Argumentei sua fala e agora está novo em folha, um pouco enferrujado, mas vai (sobre)viver.
"Seja bem vindo novo eu."

- relicário.

Procurei e não te achei... Onde está? Você foi embora? Estava tudo um pouco estranho, mas ainda assim precisava de você. Eu estava bem antes de você chegar, por que apareceu? Não pode ir escolhendo o lugar e tomando conta dele sem avisar ou pedir permissão; mas o fez e intitulo-me de "o pouco que sei ". Abraçou, cobriu com um singelo amor e colocou uma plaquinha escrito "SOMENTE MEU". Não impedi, não manifestei; apenas entrei no caleidoscópio e me camuflei em sentir o mesmo. Agora guardo tudo o que sobrou dentro de um pequeno relicário com chaves e correntes, para que dali nunca mais venha sair.
"Era uma vez, nós dois..."

- amor recíproco.

Que bom que você veio...
- Que bom que você veio.
Senti saudades...
- Senti saudades.
Quero te abraçar...
- Quero te abraçar.
Eu te amo...
- Eu te amo.
Quer casar comigo?
- Quer casar comigo?
Quero!!!
- Quero.
"Respondeu o eco..."

- utópico.

Lá brilhavam as flores, transpirando sua relva simples, com a brisa soprando levemente suas pétalas brancas e roxas, com um agradável cheiro de saudade; saudade do que vai acontecer. O chão era coberto de grama, a mais fina, sem pedregulhos ou espinhos para se pisar; apenas minhocas areando o solo e algumas formigas completando seu banquete para o jantar. O vento é doce, pode-se sentir de longe... O sol era sentimentalmente atraído pelas nuvens, mas a Lua, sua esposa, deu-lhe um cutucão e eles voltaram a recontar as estrelas. Não havia casa, nem cobertor, pois não fazia frio nem calor, nem animais selvagens, nem roubo. O único trabalho árduo era estender os braços, pairar no ar e viajar pelo espaço, voando com o universo até se cansar.
"Quer uma carona?"

- sonhos destruídos.

Busquei vários meios para conseguir, mas não deu. Fui paciente, fui compreensivo, fui tolerante; quebrei meus limites. Segurei até onde pude, mas parece que você não percebe. Você olhou apenas para seu ego superprotetor, impedindo de enxergar o que estava acontecendo ao redor. Tudo foi acabando... pouco a pouco. Agora vou pegar todos meus sonhos fragmentados e jogarei no vaso e darei descarga para que eles fiquem onde deveriam ficar; bem acompanhados. Você me queimou, me destruiu, me abandonou; me amou, me usou e depois não quis mais.
"Eu tentei, será que você não vê?!"

- em pedaços.

Saí correndo na frente de milhões; fui mais esperto. Mas essa é minha natureza... meus instintos aconteceram sem eu perceber, e quando percebi já estava lá. Quentinho, aconchegante! Ouço vozes e sinto um clima desconfortável. Sinto cheiro de uma fumaça fétida cercando meu corpo; será que estou pegando fogo? Apenas quero descansar, dormir um pouco, mas o cheiro desse líquido que estou bebendo sem perceber é muito forte para mim; amargo, me deixando com dores. Vejo uma luz vindo debaixo de mim... Será que é minha hora? Nem estou inteiro ainda... De repente algo gelado tocou em mim, era muito afiado, e então o ar começou a acabar, e pude ver os meus pedaços e minha vida sendo tiradas de mim. Será que eu fui um estorvo? Será que eu não era bonito? Será que eu não fui planejado? Será que ninguém me ama? Apenas sei que eu não pude escolher. Hoje eu morri e minha mãe também.
"Eu só queria poder nascer..."

- amigo de vidro.

Ele não anda, não fala, não pensa; está imóvel. Não come, não bebe, não dorme; apenas descansa. Não brinca, não cai, não sobe; está paralisado. Não olha, não ouve, não cheira; nem a mais pura oliveira. Não canta, não dança, não interpreta; acho que ele tem vergonha. Não ri, não chora, não sua; mesmo com bastante calor. Não surpreende, não surta, não grita; muito gentil. Não comemora, não sente, não ama! Apenas continua ali, exuberante, me completando, me entendendo...
"Ainda imóvel..."

- esquecida.

Ela procurou e não achou; buscou e não encontrou. As respostas não foram dadas. Está sem lembranças, sem chão. Sua cabeça está confusa e ninguém pode ajudá-la. Agora, presa em seus pensamentos, seu mundo está condenado a destruição da eternidade. Seu corpo dói, a tristeza a invade. A solidão, sua amiga, está presa em seu ombro; sua verdadeira companheira. Ela caiu e não conseguiu levantar; ali jogada, nem a morte a queria.
"Ela está perdida; acorrentada dentro de si."

- desabafo de um 70.

Encontro-me sentado em um cantinho de uma loja de bicicleta, num ladrilho bem frio e duro que deveria estar um tanto mais confortável por passar a maior parte do meu dia aqui; ele parece bem árduo, mas eu queria poder estar em algo um tanto mais confortável para relaxar minhas costas que dói por causa da posição arcada em que me encontro. Minha sandália está caindo aos pedaços e tem muitos furos na sola, que até parece que estou calçando um papelão no pé... apesar que um papelão não seria uma má ideia , porque assim não sentiria as pedras rasgando meus pés toda vez que piso sobre uma. Minha roupa está um maltrapilho, toda manchada de café, pois minhas mãos tremem muito e não consigo, na maioria do tempo, controlá-la. Minha família fica brava comigo, mas eu não consigo fazer ela parar de tremer; algumas vezes passo fome para não sujar minha roupa, porque todo mundo parece estar muito ocupado para cuidar de mim. Meus óculos estão embaçados de tão velho; não consigo enxergar com eles e nem sem eles; pressiono meus olhos para poder melhor focar minha visão, mas tudo está turvo. Eu nem encaro muito as pessoas para não sentirem-se ofendidas... passo grande tempo com minhas mãos em meu rosto para que não me vejam. Observo as pessoas passarem, as horas passarem, os dias passarem e nada me acontece de novo. Fico feliz quando está anoitecendo e sinto cheiro da carne assando no açougue ao lado... queria poder tanto saborear aqueles espetinhos suculentos com bastante farofa, mas não tenho coragem de pedir para ninguém comprar, para não terem mais gastos comigo.
“Estou vegetando, apodrecendo, apenas esperando para ser jogado fora como um embrulho de papel velho, esquecido e empoeirado”.

- as dores de um silêncio.

A voz se findou e nela não se ouve nada além de gemidos incessantes de dores guardadas dentro da alma; elas não entram e não saem, mas permanecem ali para lembrar o quanto dói. A lágrima está grudada dentro dos olhos e não quer sair de forma alguma; tentei espremer, empurrar e forçar, mas ali ela continua e não quer escorrer. Os dentes estão fortemente cerrados como se estivessem mastigado algum tipo de cola, que agora secou e grudou para sempre e com isso a boca fez sua parte e agora não sorri mais. O Olhar está com pedras de gelo dentro de um copo no qual permanecerá gelado até a próxima estação. As mãos e os pés estão roxos, porque o sangue não quer percorrer seu espaço; estão morrendo. O corpo está cheio de dores e descaso; uma ânsia sem fim, um rangido que incomoda e nada parece resolver. O ar é como uma bomba de gás lacrimogêneo; queimando por onde passa. Me resta apenas esperar o sol voltar a brilhar.
“Porque é fácil dominar uma dor; exceto aquele que a sente”.

- estava distante.

Estava caído, sem sentido, frustrado, mal compreendido. Te procurei e não te achei e em outras bocas me enganei, o que ganhei? Um coração partido estava antes, sem curativo, estava aberto, doente e sofrendo, chorando e gemendo. Não achei a solução, desisti de tudo então. Minha vida, agora vazia, ofegando, como num sopro da vela se apagando. O que houve? Onde estás? Te achei... como num passe de uma linda dança de amor na qual a sincronia melódica esbarra e abraça dois corações fazendo-os formarem apenas um... Te achei! Agora me perco dentro de teus olhos e dos teus lábios. Te achei e jamais largarei. Vejo então a vida das pessoas em minha volta, e continuo querendo, incessantemente você. Te achei e nunca se perderá. E como um encantador toca sua flauta mais solene para chamar seus animais para perto de si, basta me chamar com essa doce voz, que ali estarei, te amando, te querendo e sendo feliz, como nunca estive.
“E não importa onde estamos, o universo sempre lembrará seus olhos e eu os tocarei.”