- cinza.

Tudo está preto no branco. As cores perderam a sintonia e não existe mais as primárias ou secundárias; no máximo cinza. Os passarinhos cantam cinza numa equalização desarmoniosa de tristes e sofridas canções, juntamente com o vento cinza sem refresco ou calor. A terra está cinza, sem vida perambulando por ela, nem as minhocas, nem as gramas, nem as borboletas, nem as formigas cinzas, levando seu alimento desesperadamente no seu ninho cinza para alimentar sua bela e persuasiva rainha cinza. O clima está cinza e as árvores cinzas estão derrubando suas últimas folhas de seus galhos e suas antigas flores cinzas estão murchas e apodrecendo sobre um pequeno banco de madeira cinza, ao lado de um carro cinza que, antes era o ninho de um casal que se encontrava as escuras, em uma noite cinza escondido de tudo e de todos, com uma linda lua cinza e pequenos pontos brilhantes cinzas... mas num piscar de olhos eles se foram, um para a direita e um para a diagonal, um com lágrimas cinzas de saudades e outro com um falso sorriso de um dia que não terminou bem, disfarçando seu péssimo dia cinza. Algo os separa, algo os une. Sempre assim? Não sei... Uns dizem que o tempo passa e tudo passa, mas se o tempo cinza apaga, dessa vez, ele não apagará.
"Volte e devolva minhas cores, pois tudo ainda está cinza, sem previsão de cores."

- não estou mais em casa.

Estou farto dessas asas. Elas são como espelhos; não funcionam como deveriam. Queria abri-las como as de uma lagarta pós metamorfose e estar em outro lugar; eu não pertenço aqui. Queria poder acordar em outro lugar onde minha coberta são as luzes das estrelas e meu travesseiro as ondas do mar, onde nem para a direita e nem para a esquerda haveria algum rosto familiarizado; somente crocodilos e peixes vorazes (vá com calma, não quero ser devorado)... E quando menos eu perceber, olhar no horizonte um palácio cheio de luminárias acendidas a mão e minha gnose revelar que não passa de um cacto cheio de água para matar minha sedente desidratação; poeiras interiores. Pular do mais alto edifício que existir e ... nem tenho coragem disso. Não tenho coragem pra muitas coisas, desde o simples até o complexo, não vai; eu apenas tento. É como se tivesse passando do tempo e algo me puxando... um vórtice? Um furacão? As fortes ondas? Ah... como queria deitar nessas ondas salgadas e inconvenientes...
"E até minhas penas estão caindo por não alimentá-las mais."

- de olhos fechados.

Tudo parece estar meio confuso. Ouço vozes distorcidas de fundo e alguns bipes soando ordenadamente, sem se atrasarem. Minha mente está meio confusa, mas sei que algo aconteceu... sim.... aconteceu... estou deitado e não consigo abrir meus olhos, apenas minha mente está buscando decifrar o meu arredor. Bem... eu me lembro... que estava andando de carro, tarde da noite... cheiro... sim... estava bebendo alguma coisa forte, acho que era gym, não tenho certeza. Eu... estava triste com minha vida e queria esquecer tudo me afogando em um copo de... alguma bebida forte.... gym... eu acho que era gym... repentinamente sinto uma forte pressão e vejo várias luzes, vermelhas e azuis passando diante de meus olhos entreabertos, e eu estava meio curvado dentro do carro... fumaça... o pouco de olfato que tive senti cheiro forte de fumaça e meus braços estavam sangrando... o que será que aconteceu comigo? Não estou sentindo dor alguma... só estou desajeitado e envergonhado com tanta gente bem vestida ao meu redor olhando pra mim, tentando me tirar de dentro do meu carro... "eu não preciso de ajuda pra sair do meu próprio carro!" Mas as palavras não queriam sair... Estou com um zunido sem fim no ouvido, mas tenho quase certeza que pude ouvir uma sirene e alguém pedindo uma maca e soro, quem será que se machucou? Será que foi grave? Espero que não. Minha cabeça está doendo demais e não me sinto muito forte, e... minha.... vista... está... se... apagan............ Espera... estou deitado num hospital... sim!!! Eu sei quem sou e o que aconteceu comigo. Por que não posso me mexer? Por que não posso abrir os olhos? Por que ouço tanta gente chorando ao meu lado? Será que... eu... não! Não pode ser. Eu estou morrendo. Sim.... estou morrendo e não há mais nada que possam fazer por mim. Ah... como eu queria passar mais tempo com meus filhos ao invés de trabalhar tanto... Como eu queria ter feito aquela tatuagem de tribal no bíceps... Como eu queria ter comido aquele camarão frito que estava com tanta vontade, naquele restaurante caríssimo do centro... Como eu queria ter abraçado mais meus amigos e dito coisas que guardei pra mim por vergonha... Como eu queria ter deixado minha mulher em casa com um "eu te amo", ao invés de um "você só reclama da vida"... Como eu queria ter brincado a última vez com meu cãozinho, ao invés de gritar com ele por ele ter mastigado a ponta do meu chinelo favorito... Como eu queria ter pulado de paraquedas, para sentir a brisa do céu bem de perto em meu rosto... Como eu queria ficar só mais cinco minutos naquele banho bem quente sem me preocupar com a conta de água... Como eu queria ter voado de avião para tocar as nuvens através do vidro... Como eu queria chupar aquele sorvete de doce de leite com castanhas, no qual sempre o trocava por abacaxi com coco... Como eu queria estar com gosto de menta em minha boca ao invés de gym com sangue... Como eu queria gritar no meio do nada, onde ninguém pudesse me ouvir... Como eu queria mais uma chance... levantar dessa maca.... e .... apenas... dar um... pulo... de ale...gri..a..... Como... eu quer...ia.... a... úl...ti...ma... ch...an...ce..........
"Foi quando o médico anotou a hora no papel e desligou todas as máquinas que me davam ar."

- aroma doloroso.

Como eu queria... Como eu queria que vocês pudessem ver o que está dentro de mim. Ver além do que os olhos dizem e saber que não sou bonito por dentro... Estou podre, amarrotado, mofo, estraçalhado... Há apenas ossos em decomposição esperando para serem enterrados em algum cemitério de indigentes, cheio de lama e água suja. Meu sangue foi drenado pelas sanguessugas do destino que foram grudando em mim ao passar do tempo e eu nem reparei; sugaram até minha alma. Meus pensamentos estão enfraquecidos de tantos sonhos destruídos; eles me perseguem. Já não tenho metas e nem objetivos e a perspectiva e a esperança estão do meu lado... mortas de desnutrição; não mais as alimentei. Não percam mais tempo me procurando ou tentando me concertar, vocês nunca vão me achar; mas eu não sou invisível e não vou ser esquecido.
"Quero apenas deitar e desfrutar da penitência eterna que me espera."

- bem aquecidas.

A noite estava escura. Não havia se quer uma nuvem e nenhuma estrela para contar histórias de dormir. Apenas uma leve brisa e blusas envoltas nos braços ali presente. Lembro como se fosse agora... algo me fazia olhar para você e algo fazia você olhar para mim. Nos encontrávamos em vários olhares; amo me perder em você. E de todo esse êxtase na contramão, volta e meia você me aquecia. Suas mãos passavam às minhas, e nesses momentos você conquistava cada vez mais um pedaço do meu coração. Elas eram quentes, tenras, suaves, macias, e elas passeavam nas minhas. Ah... Como eu queria esquecer minhas mãos nas suas por mais tempo...
"Por muito mais tempo."

- seus pequenos lábios.

Está frio lá fora, me disse os vidros embaçados e o coração disparado. Apesar de estar embriagado em uma conversa controversa, me sinto livre, voando ao seu lado, mas preso a um cinto apertado, que até me falta ar; apenas ele me separa de ti. O barulho de um embrulho de um chocolate qualquer faz eu perceber o cheiro de amendoim com caramelo e leite maltado banhado no chocolate ao leite, no qual eu queria ter experimentado. Estava uma penumbra, mas pude ver claramente seus olhos olhando em direção aos meus: h - i - p - n - o - t - i - z - a - m; só penso nessa definição para eles. Eu não quis sair dali. Tentei atrasar o relógio, inventar assuntos, te induzir a esquecer a hora, mas não tinha como, pois o tique-taque estava mais acelerado do que o comum. Não sei como me despedi, não sei como saí e nem como andei. Só sei que estou aqui, mais uma vez perdido num universo paralelo e platônico dentro do meu quarto, com a cabeça coberta, olhando para o escuro e esperando te ver novamente.
"Mesmo que seja somente para te ver ao longe sorrindo com seus pequenos lábios."

- o sol de junho.

As árvores ao longe gritam seu nome
Num lindo sussurro de melodias
Com suas folhas o vento sopra
Meus ouvidos se encantam; sinfonias.
O céu parece laranja
Como um pingo engarrafado do teu olhar
Transborda sua luz pra mim
E as ondas me fazem relembrar
Onde está sua boca?
Não quero mais te ver
Sinto tua pele tocar
Mesmo não podendo te ter
"Queria ser o autor da sua história."

- vá.

Não importa quantas vezes eu tente, parece que nada vai mudar. Por que sou sempre o último a saber que o amor é cego? Por que ainda quero investir e insistir? Não sou seu passatempo. Saia de mim. Você é como uma célula cancerígena... nunca vai embora, e quando vai, reaparece, como uma sombra do passado. Você está num julgamento, e só tem o direito de permanecer calado, e tudo o que disser será usado contra você. Apenas aceite sua sentença de sair da minha vida. Suma! Fuja! Se esconda! Morra! Mas saia.... pois tirei a placa de "seja bem-vindo"... não há mais vagas.
"Tudo ficou preto e branco, onde costumava ser colorido."

- teus olhos.

...eles me incomodam... são perturbadores, completos, penetrantes, hipnotizantes, profundos, complexos, incertos; um mistério, um labirinto sem saída. Procuro entender o que eles dizem, mas eles permanecem em silêncio profundo, me deixando nesta louca busca por algum singelo e discreto sinal. Perto de ti, eu me perco e sinto voar... tenho calafrios, as pernas tremem, minhas veias pulsam fortemente, meu coração dispara, minha boca seca, meus sentidos se vão e meu campo de visão, aos poucos, vão se apagando, restando somente você no meu horizonte. Quero me perder em ti e não deixar rastros para não me acharem. Te busco, te procuro todos os dias, em todos os lugares, e quando não te acho, ao menos uma vez, me sinto incompleto. Não sou culpado. Não fiz nada para esse indecente sentimento nascer...
"Mas faço de tudo para ele não acabar."

- inafiançável.

Tentei escolher as melhores razões que não eram; mas o silêncio do medo encheu meu coração mais uma vez. Sei que tempo trará a esperança de volta como um raio em uma tempestade; mera verdade. E mesmo que busque as mais sinceras palavras, elas não dirão o que eu realmente sinto. Eu tranquei minhas janelas; a luz não entra mais, e o som do vento parece desafinado. Mas o que fazer se seu nome está gravado em meus pulmões e toda vez que respiro você vem em minha mente?! Mente... eu quero te esquecer, mas ela não deixa. Então, já que será assim, não vou deixar que o tempo arranque você de mim. Eu não vou dizer adeus, porque ainda tenho tanta coisa pra te contar; não posso perder o que sempre foi (e sempre será) meu. Estou condenado por um crime que não cometi. E mesmo que eu pare de escrever, quando estiver na cama, segundos antes de dormir eu lembrarei de você.
"Sinto saudades de uma pessoa que nem imagina a falta que me faz."

- cadê?

O que aconteceu com o calor da coberta? Cadê as cores dos filmes? Onde se escondeu a luz do quarto? Pra onde foi o sabor da comida? Sua parte ainda está vazia; uma bagunça. Estou morrendo aos poucos sem ninguém perceber; cada dia mais fraco. A única coisa que tenho comigo são as estrelas, lá no alto, que me fazem lembrar do seu sorriso. Me roube com uma amordaça; fuja sem rumo... comigo...
"Faça meu coração parar de sangrar."

- palavras.

Pensamentos me cercam e todos eles estão embaralhados. Tudo está rodando, mesmo tudo estando parado; muito parado. Algo foi arrancado, não devolvido e foi embora; o sono também. Um nó na garganta são as melhores palavras que tenho pra dizer; engasgado por dentro. Estou insano, controverso e pela metade. Eu até dormi de óculos esperando eles saírem de mim de alguma forma. Por quê? Não era pra ser tão mais fácil? É... espero que seja.
"Mas o que são palavras se nem você próprio acredita nelas?"