- rimas mudas.

Ainda não sei como dizer pra mim. Os versos ainda estão mudos e eu me perguntei se eles permanecerão assim. Não quero mais intrusos e eu sei que consigo. Respirei um momento só pra mim e sei que tudo vai acontecer. Sei que algum dia tudo vai se reconstruir e voltar ao seu lugar, até nos pequenos detalhes. Hoje o coração grita que não, em alto e bom som; só não me venha com outra rima.
"E se vier, meus ouvidos estarão tapados."

- ir.

Tudo começou com um olhar errado; uma parcela de ilusão no tamanho e cor. Fiz muitas rimas escondidas para colocá-las no seu devido tempo onde elas deveriam estar. Elas eram sinceras e coadjuvantes , com sua parcela de realidade e realidade; sim. Tudo o que sei é que o tempo passou como o balançar de um pêndulo de um relógio antigo, talhado minuciosamente seus detalhes, incansável sem nunca perder seu ritmo; depois de tanta tentativa, talvez... Tudo parecia tão irreal, como algo jogado pela janela sem mostrar seus cacos. Também tentei manter tudo dentro de mim como um lindo piano antigo, com uma rosa vermelha para lembrar do seu cheiro; não da rosa. Mas aos poucos estava lotado de móveis envelhecidos, esquecidos e calado; aí tudo desmoronou de uma vez. Tentei tanto e cheguei bem longe, mas agora é uma memória de... isso nem importa mais. Perdi tudo e caí. Confiei em tudo isso, mas aguentei só até onde podia ir.
"Tudo isso só para ver apenas ir."

- inspiração.

E você voltou; como eu já esperava. Cheia de desejos, amores, dores, lágrimas e insônias, nem que seja apenas em palavras, ou versos simpáticos, ou 3:39 da madrugada. Um domínio sobre a mente e as palavras é o que prevalece em uma noite fria de primavera com ventos que assoviam. Os olhos parecem querer fechar entre um piscar e outro, mas as palavras me acordam com um grito que ecoa na alma e vai passeando por todo canto que desejar; eu estava no comando. Todos os lados estão escuros e embaixo da cama parece um esconderijo de criança, com apenas uma lágrima mal formada querendo sair e voltar e sair de novo e voltar novamente para os olhos; morreu de sede. E o som do ventilador é o escudo que protege todo e qualquer um que tentar entrar sorrateiro para morar no lado esquerdo; vão bater às portas sem chaves nem maçanetas... espero que desistam logo.
"Parece um feixe de luz lá fora, mas está tão aconchegante aqui dentro..."

- desfigurado.

O ar está rarefeito, difícil de respirar. Até o suspiro mais profundo parece que passa rasgando os pulmões como navalha na carne. Os olhos não querem permanecerem abertos de tão inchados, causados pela sonolência sem fim da insônia sagaz; quem te convidou para entrar? Os lábios estão fechados, os dentes não veem mais a luz do dia e o riso está cansado de sua vida útil; stand-by. Os ouvidos pararam de funcionar, pois há quilos de algodões dentro de si para tentar tapar todo e qualquer arquivo da voz da minha mente que possa entrar. E a mente está pulando de alegria, livre, leve! Já o coração... quem mesmo que colocou isso dentro de mim? Órgão detestável, imprudente e desmiolado.
"Algum dia eu acabo com você e suas batidas... e não falta muito."

- esmagado.

Como meus olhos... como meus olhos sentem falta... sentem falta das saudades incessantes que dominavam seu ser e seu coração. Sentem saudades daquele abraço que nunca mais foi dado, aquele apertado e esmagamente e dolorosamente prensado, dado na frente de todos, não escondendo aquele amor. Saudades de te olhar por horas, dormindo um sono profundo do qual estava em outro mundo, flutuando e suspirando, e, ao acordar, acordar com um lindo bom dia rouco cheio de saudades. Saudades daqueles olhos encantados por mim, mesmo eu sendo ordinário. Saudades das altas horas da madrugada perdidas, sem pensar no amanhã. Saudades dos risos à toa, olhando as águas, sentados em uma rude pedra, com o sol se pondo logo ali. Saudades do que eu representava para você: "seu tudo". Hoje encontro-me perdido em um universo onde ninguém sabe que existe. Apenas coloco meus fones de ouvido com uma música grosseiramente alta e saio, andando só pelas ruas, para me esconder naquele lugar que só eu sei, onde só vou quando tudo está destruído; destruído por dentro, por alguém que mudou o que sentia por mim.
"Não sou mais tão especial assim..."

- mortos, planos.

E todos os dias que se passaram? E todas as noites que fiquei sem dormir? E quando eu me sentia meio atordoado de amor? E aqueles tempos que perdemos juntos? Foi tudo em vão! Agora estou num vácuo de um universo sem ter pra onde ir; perdido em uma vida sem razão. Até as horas que passaram e todas as verdades que contei, pra alguém que já pensava em não estar. Até aquela tatuagem que fiz pra você, com letras finas e bem posicionadas, já não existe mais! Ateei fogo nela para matar quem hoje eu quero esquecer. Até nossas brigas sem razão estão aposentadas. Esqueça tudo o que vivemos antes... Não acredito que achei, bem no cantinho do lixo, nossos versos, lembranças, meses e ontem; não eram os meus. Antes os versos estavam errados e mal escritos, agora eles nem são mais escritos, nem naquela folha rasgada de um pedaço de guardanapo, nem naquele velho e cansado livro de poesias musicais. Porém não vou ficar aqui me lamentando com textos que nunca serão lidos. Essa é a última vez que escrevo estas palavras... não há mais nada a fazer e quando eu terminar, você nunca mais vai saber sobre mim. Essas palavras são na realidade um adeus. Lembra daqueles nossos planos?
"Eles não são mais seus."

- por você.

Ahh, se você soubesse... ahh, se você soubesse o quanto eu olho para você... esses olhos levemente apertados e sem brilho, com muitas alegrias passageiras e poucas delas para sempre... se soubesse viria até mim para chorar todas as lágrimas que não chorou no enterro do seu coração. Sim... eu estaria aqui, disposto a te ouvir, só para ter suas mãos, nem que sejam bem próximas às minhas, para os dedos se entrelaçarem e dormirem ali mesmo. Eu iria te abraçar por um grande espaço de tempo, onde eu teria o controle da fermata, só por você. Mas não tenho você, não posso ter, e talvez, nunca terei... Você é e continuará sendo um sonho do qual não quero acordar, mesmo sendo um amor unilateral. Basta ter sua presença, que eu guardarei tudo isso somente dentro de mim, onde trancarei a porta e jogarei a chave no fundo do mar dos meus pensamentos.
"Saudades do seu sorriso desajeitado que você nem sabe..."

- que seja a sorte.

Meu coração continua disparado; isso é normal? Amar alguém em pensamento? Por que você foi aparecer? Não poderia ao menos continuar a se camuflar em uma árvore qualquer, ao lado de um lindo e perfeito girassol? As pétalas das flores estão ao meu redor, todas jogadas, e vejo mais bem-me-queres do que malmequeres... será que eu trapaceei? Meu jogo, minha regra! Agora, estou apenas de dedos cruzados, e não sei se eles pedem para te ver ou para não te ver.
"Que sim, que sim, que sim!"

- sem nome.

De longe te vejo imóvel. Algo, lá no alto está vermelho, e, então, tudo parou. O ar, os pássaros, os pensamentos, o universo, e tudo o que eu conseguia fazer era te olhar. Alguns carros passavam e passeavam, as pessoas estavam andando e depois correndo... parece que pouco a pouco as coisas estão voltando a se mover, porém aquilo no alto está verde e eu ainda estava te olhando. Suas mãos eram firmes e seus olhos estavam desviando dos meus propositalmente, de vergonha, talvez, mas volta e meia você espiava de canto; seus incríveis olhos que marcaram a ferro minha mente. O desenho do seu pescoço me fez delirar, e eu continuava a te olhar. Seus dedos eram tenros e suas unhas desenhadas a mão! Como pude ver tudo isso em apenas 4 segundos? Eu consegui! E mesmo depois deste dia, eu ainda continuo, de olhos bem fechados, te olhando.
"E ainda nem sei seu nome."

- uma nova rima.

Parece que você nem se foi. Cada dia mais faço questão de lembrar aquela voz que saia estridente por dentre seus finos lábios; eu me irritava, mas te queria por perto. Eu sinto, sinto saudades daquele tempo em que desperdiçamos juntos, muitas vezes sem fazer nada, apenas estar. Ainda sinto sua presença dentro de mim, mas algo vem tirando você do meu eu. O tempo? O destino? Sei lá, mas dói. Não queria ter que levantar mais uma vez da minha cama e não te achar, nem debaixo da minha cama, nem em cima do guarda-roupa, nem na sola do sapato, nem atrás dos livros jogados. Eu sabia de tudo, mas agora tenho que te esquecer, só não sei de que maneira vou dizer pra mim; me convencendo que conseguirei sem você, não sou capaz. A vida está acontecendo e vou me reconstruindo, me recolocando em algum lugar que talvez me pareça certo. Quem completará meus incompletos versos?
"Apenas procuro um novo verso com rimas incertas para te tapar; ou tentar."

- funeral.

Hoje eu me sentei e me permiti trazer à memória algumas lembranças daquelas tardes nubladas, quando estava deitado, sem paz em meus pensamentos. Eu não podia estar só, nem vazio, pois alguém estava ao meu lado, observando cada ar que em mim entrava. E em outra tarde qualquer, nunca irei esquecer aquele olhar, que, não demonstrei, mas vi todas as cores daqueles furiosos olhos, que diziam pra mim "adeus"; mais uma vez. Mas os lábios não se encontraram pela última vez; foram embora emudecidos e trancafiados. Agora vivo todos os dias em um funeral. Toda luz que havia em mim, agora é escuridão. Tudo que eu tinha de riqueza, agora é somente tristeza. Tudo o que eu sabia, agora é mentira. E tudo que eu preciso, está bem longe de mim. Não vais seguir em frente? Como faço para superar?
"Não vou te enterrar."