- pintor.

Nada parece bem. Estou despedaçando. Ilusões cercam minha mente e me prendo (ou tento) em momentos que sei que terão um fim; não porque tem que ser, mas porque é. Não era para ser tudo mais colorido? Não era para ser tudo mais completo? Não era para ser tudo mais confortável e à vontade? Não era para eu perder o sono ou me embriagar em algum deles? Sinto-me voando sobre o horizonte, sem um alvo como direção. Não que eu esteja perdido, mas estou sem rumo... uma antítese! Só queria ter um grande lápis de cor com uma pequena borracha na ponta para desenhar uma pequena flor e perguntar para suas pétalas se bem-me-quer ou mal-me-quer, e ir tentando e me sujando todo com uma explosão de cores... é o que eu realmente queria. Apagando coisas, pintando coisas e rabiscando coisas com bastante força...
"Acho que prefiro uma borracha grande e um pequeno lápis..."

- despercebido.

Não sei porque insisto. Está na cara, não será mais a mesma coisa; por que ainda acredito? Sempre amei mais e o seu desdém foi mais. Sempre me sacrifiquei mais e você era talvez. Eu o culpado, você inocente. Nunca recebi um abraço de elogio por algo, mas você me cobrava isso. Há uma coisa que não posso negar... você dá bastante atenção! (para a droga do seu celular). Agora estou fechado e me sinto invisível. Os dias vão passando e nada mudando.
"Só não sei até quando."

- sem mais chances.

Eu estava com medo. Meu coração pulsava, meu suor caia, minhas mãos tremiam... como vim parar aqui? Até onde cheguei? Será que era pra tanto? Sim, era! Respiro fundo, fecho os olhos e revejo varias vezes a mesma cena em minha mente acordada; não pode ser real, não pode ser real... Mas era. Como pôde fazer isso comigo? Entreguei para você tudo o que eu tinha de melhor em mim, briguei, venci medos e limites e parece que mesmo assim não fui bom o suficiente. Por que não me disse antes? Seria tão mais compreensível... Mas você preferiu o caminho mais doloroso; a mentira, o engano. Você nem pensou em mim, como eu me sentiria, como seria depois disso; apenas fez. Agora em minha frente está um cubo de gelo pendurado pelos pés com uma corda, sangrando aos poucos pedindo perdão por várias vezes, que ficou até automático e cansativo. Apenas apontei o indicador na minha boca, com a mão ensanguentada, e dois sons estavam naquele lugar: "Shhhhhh" e uma canção de ninar. Agora é tarde demais, já está feito e não pode ser apagado. Só espero que tenha aprendido a lição e mesmo não havendo outra e qualquer chance, direi apenas para não perder o costume:
"Nunca mais faça isso!"

- soar da porta.

Eu sabia! Algum dia iria acontecer. Você ficou pra trás e eu estava rápido demais. Culpa minha? Sua? Não sei se existe culpa ou culpado. Insisti e persisti em algo incrível e fantástico e investi meus sonhos em um único ser. Como pude me enganar? Tudo parecia bem... por que foi embora? Não pude nem contemplar seu adeus. Seus pequenos olhos cheios de lágrimas e desespero, seus lábios tremendo e suas costas virando para mim são as últimas coisas que tenho de você no restinho da minha lembrança; depois disso lembro estar olhando para o teto do meu quarto, paralisado, tentando entender o porquê e como cheguei até alí. Algo dentro de mim pede para você voltar em uma madrugada fria de inverno, batendo em minha porta, de braços cruzados e tremendo de frio, batendo o queixo e balbuciando algo do tipo "oi"; você sabe que um oi bastaria. Mas algo dentro de mim, bem no fundo, sabia que tudo isso acabaria.
"E não mais voltaria."

- apenas sou.

Tentei escrever coisas sobre Deus, no qual sou fã, amo incondicionalmente e mais que tudo, mas faltaram-me palavras. Tentei escrever coisas sobre família, mas não consegui. Tentei escrever coisas sobre felicidade, mas "ué", onde ela está mesmo? Tentei escrever coisas sobre alma gêmea, mas uma sempre será mais velha que a outra. Tentei escrever coisas sobre o futuro, mas ele sempre será impróprio e imprevisível. Tentei escrever coisas sobre o passado, mas não quero velá-lo mais vez com lágrimas amargas... Tentei escrever coisas sobre desejos sexuais, mas eles estão presos em algum lugar chamado rotina anárquica. Tentei escrever sobre a vida, mas ela está passando tão rápido que quase me atropelou. Tentei escrever de tudo, mesmo. Mas a tristeza, saudade e dores são o que me inspiram. Não me julgue, não sou sombrio. Sou feliz e muito. Apenas deixo elas tomarem conta de mim por um tempo e me idealizo em situações de meus pensamentos. Não tenho controle de todas as escolhas.
"Deixo-as fluir."

- sorrateira.

Quem é essa que vive perambulando minha biografia escrita, bisbilhotando minhas letras, deixando seus rastros com sua rubrica, bem-dizendo as palavras de um sentimento enrolado, se enxergando através de meus olhos, dando palpites certeiros de canções de fundo de um livro aberto, passando seu tempo de ócio embriagando seus olhos com movimentos na horizontal pra lá e pra cá como um badalo frenético e incansável de um relógio cuco tentando desvendar as combinações de pequenos riscos que parecem fazer sentido? Será uma bela rosa por sua beleza e delicadeza incomparáveis de cores vivazes que impressionam até aqueles que não podem ver, ou será um caule cheio de espinhos que penetram a carne transpirada fazendo sangrar até o fim deixando uma marca de sua presença para sempre? Será uma bailarina do pé cheio de calos, mas coberto por um pequeno e delicado sapato de louça, um comprido laço magenta em sua cabeça transpondo os louros de seus cabelos finos e levemente enrolados e um vestido rosado, bem colado ao seu pequeno e justo corpo, ou uma esquisita esqueitista roqueira com seus reluzentes cabelos californianos, colorido de azul e roxo, com sua roupa larga no corpo, para esconder seu corpo no qual tem vergonha, se sentindo um lixo humano por não conseguir alcançar seus objetivos e ninguém ao menos se importar dando-lhe bom dia, desanimada da vida ao ponto de explodir por dentro, costurada e cicatrizada pela vida igualmente aos seus sapatos despojados remendados com grampos e fitas adesivas? Ou será ela um pouco de cada? Ela é misteriosa, astuta e oculta. Não sei nada desse ser que sonha de longe (bem) acordada, apenas seu codinome:
"Vaiper"

- "rastreando."

Oh preciosa gota de orvalho que vem cambaleando, deixando seus rastros por dentre as intermináveis folhas secas do outono sem fim, conte-me seu mais profundo segredo para que eu possa estar mais perto de ti. Quero sua fragrância de fonte inesgotável da mais pura e sincera água, na qual a cada andar solene vai contando um pequeno resumo de sua vida de mesmices. Surpreenda-me com seu olhar e guia-me ao encontro de ti, pois quero saciar o tormento que vive dentro de mim, nessa interminável estrada de pedras pontiagudas; me corroendo. Apenas siga o notável conselho que eu jamais seguiria: Não fique enamorada por aquilo que não te faça bem; o supremo.
" Fuja! Evapore! Corra! Desapareça ao vento!"

- em seu silêncio.

Sei que não está mais aqui. Mas me sinto bem melhor assim, pois sei que doeu, mas não existe ferida que não cicatrize, existe?! Há uma triste história de um homem que resolveu manifestar seus problemas na bebida (não lembro se era gim ou vodka) por não querer mais falar; emudeceu pra sempre. Estava perdido por dentro, contando histórias, em silêncio, para o fundo de uma garrafa vazia. Perdia horas olhando ao redor, procurando um ponto fixo no qual o chamasse atenção; mas nada achava, além de sua garrafa. Um estrondo cessou o silêncio e sua garrafa partiu-se em milhares de cacos. Tentou procurar outra garrafa cheia ou vazia, não importava, mas aquela era insubstituível. Com uma cola de colar papel (era a única que tinha) tentou colar os pedaços, mas se cortou profundamente , abrindo mais uma cicatriz sangrenta, na qual demorará outro tempo para cicatrizar.
"Você não pode brincar com coisas quebradas."

- imprfeito.

Estou sentindo o amor desde os tutanos do meu fêmur até meu olho grande quando olho o topo de uma cidade imensa; infinita. Estou louco, incontrolável, uma ave fora do ninho; hipnotizado. O mundo não entende, as pessoas tentaram, mas não parece possível explicar tal sentimento... procurei juntar letras, mas não as achei; um sonho realizado, mesmo sem carruagem, bruxas e castelos. Mas esvaneci, sim. Tudo parecia estar fora do lugar, uma loucura, tudo incomum; faltava ar. "E agora?" Me perguntei... agora está ordinário, pressionado, tenso. Tirei a venda e não sou guiado mais por ti. Não sou seu prisioneiro, nem seu escravo particular. Me dei por inteiro, nada faltou. Te completei, me declarei, me arrisquei, me afundei. Não consigo levantar, não quero. "Saia daqui", diz meu interior... "SAIA". Mas as palavras não passam de ecos que apenas meus pulmões e minha garganta sabem. Por quê?! Apenas porque... é... reticências... nas palavras... no meu pensamento... nos meus olhos... e... na minha carne...
"67%"

- Ahhhhhhhhhhh.

Queria poder gritar... bem alto. Queria poder gritar nas montanhas, na floresta, num deserto escaldante; apenas gritar. Gritar para a lua e para as estrelas, para as nuvens e para o céu; ele não tem culpa. Gritar, apenas gritar. Gritar onde ninguém poderia me ouvir e vir questionando qual o motivo do grito. Apenas gritar bem alto, sem nada nem ninguém saber. Gritar pro mundo afora, gritar pro mar, para o horizonte... Mas estou cercado de pessoas e não posso gritar; meu pobre e esquecido grito, que está preso nas minhas cordas vocais e não consegue sair.
"Apenas continuarei a hesitar, aguentando firme com meu grito calado."

- ardendo.

Na pia apenas um prato, um copo, um talher. No banheiro uma toalha, uma escova de dentes. No quarto um colchão, um guarda roupa, um perfume; velho, esquecido. Nas paredes apenas ecos, no quintal um resquício de perfume sendo apagado pelo vento; sopro ingrato. O sol está escondido, mas está ardendo a pele crua. Os pássaros cantando; sobrecarregados. Aquele cantarolante piano está em um silêncio contínuo e um pouco empoeirado. A borboleta repousa no lírio e a chuva foi embora, não olhou para trás e nunca mais voltou. O que houve de errado?
"Nada... Apenas cansados."